Reportagens

Teatro infantil insere a morte em produções

No espetáculo “O Menino Detrás das Nuvens”, companhia de Araçatuba faz
um recorte sobre a partida de pessoas queridas; caminhão de brinquedo simboliza o caixão

Algumas descobertas na infância podem ser motivo de grande encantamento. Quando pouco se viveu e quase nada se conhece, muita coisa tem um sabor diferente. A perspectiva única da experimentação pode causar, depois do susto inicial, êxtase; outras mudam o sentimento para algo semelhante à decepção.

Assunto bastante delicado para ser abordado com as crianças, a morte é um fator que gera sensações que muitas vezes os pequenos ainda não sabem definir muito bem. E nem todo mundo encontra a melhor forma de explicar por que o cãozinho de estimação não vai mais brincar ou por que o avô foi para o hospital e não voltou mais para casa, por exemplo.

Deixando o tabu de lado e mergulhando na linguagem lúdica com a qual as crianças se identificam, as artes cênicas têm encontrado formas de trabalhar o tema. Se antes a morte era presente em enredos restritos ao público adulto, há alguns anos vem permeando peças direcionadas a plateias infantis.

TRAVESSEIRO
A premiada Velha Companhia, de São Paulo, por exemplo, tem entre suas montagens o espetáculo "O Travesseiro", de 2009. No texto de Kiko Marques, uma menina perde o irmão e, transitando entre sonho e realidade, o transforma em um travesseiro.

Em "O Pato, a Morte e a Tulipa", da Cia. De Feitos (de São Paulo, 2011), três aves são perseguidas por uma figura sinistra e passam a refletir sobre "quando chegar o dia". Mais recente, "Mas por quê??! - A História de Elvis", estrelado por Letícia Colin, estreou em abril deste ano no Rio de Janeiro; a trama traz como protagonista uma menina inconformada com a morte de seu canário-belga Elvis e que tenta lidar com a dor da perda.

TIO MALAQUIAS
O grupo araçatubense Mancomunados também acredita que a morte não deve ficar de fora das abordagens para as crianças no teatro. No espetáculo "O Menino Detrás das Nuvens", que estreou em 2013, a companhia faz um recorte sobre a partida de pessoas queridas. Em uma das cenas, é narrada a morte do Seu Malaquias, amado tio do protagonista, em um acidente de caminhão. A notícia é dada pela mãe, assim que ela acorda o garoto.

Peça, explica Melinsky, aborda as coisas simples da vida de uma forma mais direta, sem rodeios 

LIRISMO
Como ressalta o diretor da companhia e ator Alexandre Melinsky, toda a cena foi construída simbolicamente e com muito lirismo. O ator que interpreta o tio narra a morte da sua personagem, despindo seu colete e cobrindo o caminhão (que é de brinquedo, feito em madeira); a ação transforma o pequeno veículo na simbologia do caixão coberto. "Em passos fúnebres, com som ao fundo, o ator atravessa todo o palco, acompanhado pelo olhar do menino, que está ao fundo da cena abraçado a sua mãe", complementa o diretor.

A peça, como explica Melinsky, aborda as coisas simples da vida de uma forma mais direta, sem rodeios, sem extremismos na fantasia e nas cores - duas coisas predominantes na maioria dos espetáculos para crianças. Ele conta que a intenção é instigar a imaginação dos pequenos e respeitar sua inteligência, também, claro, quando se trata da morte.

"Usamos a linguagem poética e narrativa para falar de maneira simples dos desejos deste menino que sonhava em conhecer o mundo. Porém, toda trajetória de vida tem as surpresas, as tristezas e as perdas - neste caso a morte do tio, última esperança do menino de conhecer o mundo. O próprio drama da personagem se encarregou de provocar a abordagem do tema e conduzimos o espectador a olhar a morte como poesia, um momento de passagem", diz.

E, para o diretor, a melhor forma encontrada para mostrar essa passagem ao público infantil foi fazer isso de maneira mais sutil e natural possível.

A eficácia da arte para tratar de um tema delicado é grande, segundo Melinsky, sobretudo porque o segmento consegue manter uma proximidade diferenciada com o universo infantil. "A arte é o canal mais direto para tratar a morte com as crianças. Através dela, é possível encontrar inúmeras formas de abordar o assunto, provocar o entendimento da criança e fazê-la encarar de uma maneira simples", conclui.

Texto: Talita Rustichelli
Fotos: Divulgação
Edição: Aline Galcino

A morte sem tabus Designed by Templateism | MyBloggerLab Copyright © 2014

Tecnologia do Blogger.