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Recordação de quem morreu é a forma mais digna de consolo, diz ateu

Gabriel Soares defende responsabilidade nas escolhas

A morte de um ente querido é algo terrível e inconsolável para o músico biriguiense Gabriel Soares, que é ateu. O tema é uma das reflexões do livro “As Madeleines das Freiras”, escrito por ele em parceria com Pedro Peruzzo. A obra será lançada no final do mês.

O único conforto possível, no ponto de vista dele, é o da memória. “Ter um cérebro de primata capaz de armazenar acontecimentos que podem, até certo ponto, ser evocados enquanto ainda temos consciência é, na minha opinião, o único consolo que temos”, afirmou Soares.

O músico disse que se recusa a flertar com qualquer tipo de consolo metafísico, mesmo diante de algo irrevogável, como é o caso do fim da vida.

EXISTÊNCIA
E como encarar a ideia de finitude da vida diante da eternidade oferecida pela religião? Para Soares, o absurdo de existir - e saber que em determinado momento não existiremos mais - é uma situação que devemos encarar. “Certamente encarar esse absurdo não é uma tarefa fácil. Sentir desespero e angústia faz parte desse processo”, comentou.

“Mas o pior de tudo é o pacto de entregar a possibilidade de desfrutar uma vida na Terra em troca de uma eternidade em algum tipo de além-mundo”, declarou o músico, que acha que a fé na eternidade faz com que os devotos de alguma crença sejam negligentes com a própria vida.

De acordo com Soares, aquela pessoa que acredita somente nesta vida, valoriza cada minuto dela e tem responsabilidade por suas escolhas, que muitas vezes são irreparáveis.

Apesar de já ter sentido medo da morte, o músico prefere, atualmente, seguir a receita do filósofo Epicuro: “se eu estou, a morte não está; se a morte está, eu não estou”. “Não vou sentir vontade de estar vivo quando estiver morto. Nem vou saber que estou morto”, argumentou.

SENTIDO
Mas, se não existe vida após a morte, qual é o sentido da vida para um ateu? A falta de sentido, para quem não acredita em um deus, conforme o músico, é total. Porém, ela permite uma vida livre de ilusões, segundo ele. “É preciso tomar consciência da falta de sentido da vida para viver com o que ela pode dar. Reconhecendo seus limites, descobrindo suas potências, encarando o absurdo de frente para, por fim, viver absurdamente”, disse.

Texto: Ronaldo Ruiz Galdino
Foto: Divulgação
Edição: Sérgio Teixeira

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