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No candomblé, Ikú leva pessoas que cumpriram jornada na Terra

Eliandra Soleira, do terreiro Ilê Axé Alaketu, ao lado de Wagner, seu marido

Ancestralidade, devoção e mistério cercam a religião que cultua a natureza por meio dos orixás (entidades que regem a vida do candomblecista). Para falar em candomblé, é preciso voltar os olhos para o passado e entender a história da África e toda a influência que os negros escravizados trouxeram para formação das religiões de matriz africana.

Na ótica dos praticantes do candomblé, o conceito de morte vai além de um momento de despedida, é um recomeço. Por conta das diversas nações africanas que serviram de base para a formação do candomblé no Brasil, traçar um perfil único desta religião - repleta de peculiaridades - é praticamente impossível, segundo Eliandra Soleira.

Ela, que é integrante do terreiro Ilê Axé Alaketu, em Araçatuba, conta que, para o candomblecista, a morte não significa o fim, mas um processo natural que marca a mudança da jornada individual no Ayê (terra) e o início de uma nova jornada no Orum (céu), plano superior formado por nove espaços celestes. Ikú (morte) é a divindade que vem remover as pessoas que já cumpriram sua jornada na Terra e levá-las para o próximo plano.

O conceito de inferno, comum em outras religiões, não se enquadra nos dogmas do candomblé. "Ao morrer, a pessoa terminará sua jornada na terra e iniciará a caminhada em outro plano, percorrendo os nove espaços existentes”, explicou Eliandra.

Para o candomblecista, a morte não significa o fim, mas um
processo natural que marca a mudança da jornada individual, diz Eliandra

AXÊXÊ
O axêxê (retorno às origens) é a cerimônia fúnebre de um praticante do candomblé. Ele consiste em diversas etapas, que vão da preparação do corpo do falecido, feita de forma sigilosa pelos babalorixás ou ialorixás (líderes do terreiro, o primeiro masculino e o segundo, feminino) até a preparação do próprio terreiro para a cerimônia, que será feita com rezas em forma de cânticos.

A duração de um axêxê não é específica, podendo durar dias e até anos, dependendo do tempo de iniciação do falecido. Em alguns casos, o terreiro fica fechado para a visitação por tempo indeterminado.

A cremação não é utilizada no candomblé. "Em relação ao corpo, cremos que viemos da natureza e devemos retornar para a natureza na forma de alimento para seus elementos, para que o processo continue", concluiu Eliandra.

Texto: Victor Ferreira
Fotos: Dayse Maria - 15/10/2015
Edição: Sérgio Teixeira

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