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Falar sobre a morte não cria nem aumenta a dor dos pequenos, avalia psicopedagoga

Para Kátia Regina, tema deve ser tratado como fechamento de um ciclo

Filosoficamente e espiritualmente, explicar a morte não é tarefa das mais fáceis. Cada religião exprime os significados conforme suas crenças e simbologias; poetas também fazem suas tentativas, de forma subjetiva. Como, então, preparar uma criança para algo tão cheio de simbolismos (exceto para os mais racionais) e fazê-la entender que a morte é natural?

Falar de morte com os pequenos, como afirma a psicopedagoga Kátia Regina Pires Calciolari, não significa entrar em altas especulações ideológicas e metafísicas, nem em detalhes assustadores. "É simplesmente colocar o assunto em pauta, seja por meio de textos e imagens, simbolicamente, na vida da criança. Que não seja mais ignorado e, se houver um espaço de acolhimento, no qual as pessoas sintam segurança para expor suas opiniões, ouvir e refletir, esse pode ser um potencial gerador de transformações e ressignificados da vida", afirma.

AJUDA
Kátia frisa que conversar sobre o tema com os pequenos não é uma forma de criar ou aumentar a dor. Ao contrário, tocar no assunto os alivia e os ajuda a elaborar a perda. O ideal é falar de modo verdadeiro, tratando como um fenômeno de fechamento de um ciclo, que não exclui o sofrimento e a saudade.

A morte é sentida e compreendida pelos pequenos de formas diferentes, de acordo com a faixa etária. Kátia explica que, antes dos dois anos, eles intuem a morte por intermédio de sua experiência de dormir e de acordar; o conceito de morte não existe, mas é concebido como ausência e falta. Dos três aos cinco anos, a criança compreende a morte como um fenômeno temporário e reversível, e não como uma ausência sem retorno.

Já a partir dos seis até os nove anos, entendem a oposição entre a vida e a morte e compreendem a morte como um processo definitivo, embora ainda não sejam capazes de explicar adequadamente as causas da morte; entendem sua funcionalidade, ou seja, que as funções vitais cessam. E, a partir dos dez anos o conceito se torna mais abstrato; compreendem a morte como inevitável e universal, irreversível e pessoal, e as explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica, como afirma Kátia.




ETAPAS DO LUTO
Em relação ao falecimento de alguém próximo, ela afirma que há três etapas principais no processo natural de luto infantil: protesto (a criança não acredita que a pessoa esteja morta e luta para tentar recuperá-la); desespero e desorganização da personalidade (o anseio pela volta da pessoa falecida não diminui, mas se inicia a aceitação do fato); e esperança (começa a organizar a vida sem a presença da pessoa morta).

Há várias maneiras de ajudar uma criança no processo de luto, segundo Kátia, sempre com muita paciência e entendendo que ela pode se envolver em uma confusão de sentimentos em situações como esta. Ajudá-la a expressar seus sentimentos, responder perguntas com sinceridade, tentar explicar a morte falando de acordo com seu nível de desenvolvimento e reforçar que ela se sentirá melhor depois de um tempo, são alguns dos passos fundamentais.

MANIFESTAÇÕES
Questionada sobre a necessidade de esperar que a criança manifeste dúvidas antes de abordar o assunto, a psicopedagoga afirma acreditar na educação para a morte. "Penso na necessidade se introduzir a educação para a morte (ou educação para a vida?) para nossas crianças, desde pequenas, porque a morte deve ser acolhida e não evitada, já que é precisamente ela que, de fato, nos ensina a viver", complementa.

Sobre privar os pequenos de velórios e enterros, afirma: "Não se pode forçá-los a irem, mas eles se beneficiam de participar junto aos adultos deste ritual de passagem. Explique direitinho o que é e pergunte se a criança quer ir, mas nunca decida por ela. Os rituais servem para que todos vivenciem melhor a despedida. E não se preocupe: os especialistas concordam que velórios e enterros não traumatizam as crianças", conclui.

Morte é sentida e compreendida pelos pequenos de formas diferentes, de acordo com a faixa etária, diz Kátia

Texto: Talita Rustichelli
Fotos: Alexandre Souza - 18/09/2015
Edição: Aline Galcino

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