Reportagens

Rede social muda a forma de viver o luto

Cleonice, de Birigui, presta sempre homenagem ao amigo Giovani Machado, assassinado em fevereiro deste ano

É domingo. O dia tinha acabado de nascer. Enquanto o sol mostrava sua face clara e dourada nas primeiras horas da manhã, os cemitérios começavam a receber visitas de parentes saudosos. Com flores e, às vezes, material de limpeza nas mãos, eles iam até aquele espaço "sagrado" relembrar, homenagear e cuidar da casa eterna daqueles que partiram para o território infinito da memória. Mas o mundo digital trouxe mudanças nessa rotina.

A cantora Cleonice Alves da Silva, popularmente conhecida como Cléo, tinha acabado de acordar. Em vez de correr para a floricultura mais próxima e visitar o cemitério, pegou uma vela, acendeu em seu altar particular e, só então, empunhou seu notebook e entrou no Facebook. A bordo da nave da rede social, acessou o perfil de seu amigo Giovani Machado, ex-secretário de Cultura de Birigui, que fora brutalmente assassinado em fevereiro.

Enquanto no cemitério tradicional uns depositavam flores nos túmulos, os dedos de Cléo digitam uma mensagem. As letras formaram uma frase carregada de saudade e tristeza, acompanhada de uma foto, onde os dois apareciam felizes. No lugar de lágrimas e sofrimento, um sorriso selou o fim daquela homenagem dominical.

A rede social transformou a forma de se homenagear os mortos. Aos poucos, o lugar de adoração deixa de ser os túmulos e gramados e se transforma em perfis. Os usuários convertem páginas de pessoas que já se foram em memoriais, depositando mensagens e fotografias.

LEMBRADO
Cléo é prova disso. "Não gosto de cemitério. Me sinto sufocada. É um ambiente muito carregado", conta ela. Diariamente a cantora acessa a rede social para prestar homenagem ao amigo falecido. "Ele jamais pode ser esquecido. E eu fico muito feliz quando posto fotos minhas com ele", comentou. "Mas quando cai a ficha de que ele não está mais aqui, dói, porque sei que, quando estiver carente e com problemas, ele não estará perto para me abraçar, me ouvir...", diz, sem conseguir terminar a frase e com lágrimas nos olhos.

No lugar de visitar o túmulo "off-line" de Machado, Cléo tem como missão zelar e embelezar a lápide "on-line" dele. Ela também utiliza outro meio digital para suprir a ausência. "Geralmente me pego revendo mensagens que nós trocávamos pelo celular. Ajuda a matar a saudade. Essas atitudes, de prestar homenagem e mostrar para ele, no Facebook, que ele não foi esquecido, ajudam a driblar as dificuldades da vida", acrescentou Cléo, que foi apenas uma vez ao cemitério, no enterro do ex-secretário, mas não conseguiu chegar próximo devido à emoção.

PSICOLOGIA
A troca do universo de cruzes e lápides pelo meio eletrônico das redes sociais é compreensível, levando-se em conta a mentalidade humana. Conforme a psicóloga Katiuska Fabiana da Silva, o que ocorre com Cléo é reflexo da mudança de cultura das pessoas.

"Antes, as pessoas elaboravam o luto em suas casas, em rodas de conversas com os amigos. Hoje, como a internet separa as pessoas fisicamente, mas aproxima digitalmente, as pessoas preferem transferir esse luto para a rede social", analisou. "Apesar de que isso é um fenômeno novo e não há estudos para tentar entender a origem", finalizou.

COMO FAZER
Neste ano, o Facebook, a maior rede social do mundo com cerca de 1,5 bilhão de usuários, passou a disponibilizar uma ferramenta para a transformação do perfil pessoal de falecidos em memoriais virtuais. Assim, a página da pessoa indicada será mantida eternamente ativa e, antes do nome dela, aparecerão os dizeres "em memória de". Tudo o que foi postado anteriormente continuará disponível. Memoriais não são exibidos em espaços públicos, como sugestões de amigos e lembretes de aniversário. Mas ainda aceitará publicação de fotos e atualizações.

Para transformar o perfil de uma pessoa que já morreu em lápide virtual, o usuário precisa preencher um formulário e ser amigo da pessoa em questão. O processo é fácil, mas pode levar algum tempo. Logado em sua conta, acesse www.facebook.com/help/contact/651319028315841 e preencha o formulário. Ele pedirá o nome do usuário falecido, que será marcado como se faz em uma foto.

O formulário também pedirá a data da morte, um link de alguma matéria ou documento digitalizado que comprove o falecimento. Assim que for aprovado pela equipe responsável pelo Facebook, o perfil se transformará em memorial.

Clique na imagem para ampliá-la e veja passo-a-passo de como avisar o Facebook para transformar perfil em memorial

APAGAR
Se por um lado algumas pessoas gostam de zelar, manter e visitar o perfil de entes e amigos, por outro, há quem prefira que todo o rastro produzido por alguém já morto na rede social seja apagado. Um caso emblemático ocorreu em 2013, quando a Justiça do Mato Grosso do Sul determinou que o Facebook retirasse do ar o perfil da jornalista Juliana Ribeiro Campos, que morreu após complicações de uma endoscopia, em maio de 2012. O pedido foi feito pela própria mãe de Juliana, Dolores Pereira Ribeiro.

Para o portal G1, Dolores afirmou que teria tentado desativar a conta de várias formas, sem sucesso. A justificativa para o pedido era que a página da menina tinha virado um "muro de lamentações", com os amigos virtuais postando mensagens, músicas e até fotos para a jovem. "Ver tudo isso é muito doloroso pra mim, para os amigos e para a família. Ela morreu e precisa ficar em paz, precisa se desligar desse mundo", afirmou.

GRUPOS
Na rede social, ainda há páginas dedicadas à divulgação de perfis de pessoas mortas. Dentre as mais famosos estão "Profiles de Gente Morta", com 2.254 mil curtidas, e o grupo homônimo, que é fechado, com mais de 15 mil membros. Nestes locais, os administradores e participantes postam, quase diariamente, páginas de pessoas que morreram (de forma natural e violenta) com links de referência, como notícias e documentos que comprovem o óbito.

Texto: Márcio Bracioli
Edição: Aline Galcino
Foto: Dayse Maria - 17/09/2015

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