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Câmara de Araçatuba aprovou mais votos de pesar que pedidos de informação

Maria Aparecida (à esq.), que gostou da homenagem, e Benigna Ferreira seguram foto de Moringa

A Câmara de Araçatuba aprovou mais votos de pesar, que servem para homenagear parentes de pessoas que morreram, do que requerimentos de informações oficiais, úteis para cumprir a fiscalização que cabe aos parlamentares.

Do início desta legislatura, em 2013, até julho passado, foram apresentados e aprovados 252 votos de pesar. Enquanto isso, 208 solicitações de informações foram acatadas pelos parlamentares e outras 55 foram rejeitadas.

O vereador Jaime José da Silva (PTB) é quem mais apresentou votos de pesar, com 69 requerimentos desse gênero durante o período analisado. O parlamentar petebista é um dos que defendem esse tipo de propositura.

“É uma maneira de a população, ao mesmo tempo em que conforta a família, fazer a despedida da pessoa que fazia parte do corpo social e o deixou. Se formos trabalhar com o conceito cristão, trata-se de um irmão que partiu”, argumentou Jaime. “Se não fosse importante, não haveria corrida para assinar o requerimento. Todos querem cumprimentar e se solidarizar com a família.”

O petebista contou que a quantidade de votos de pesar apresentados por ele tem a ver com sua mobilização, que envolve uma interação intensa com a comunidade. Ele explicou que não há critérios para a indicação da homenagem. “É algo íntimo”, avaliou.

O vereador não acredita que a quantidade de votos de pesar possa atrapalhar as sessões. Para Jaime, o que tumultua os trabalhos no plenário são as discussões “sem causa que se eternizam” e não têm relação com o Legislativo.

Jaime também rechaça a hipótese de a homenagem gerar votos, observando que, geralmente, se perde as eleições enquanto está no cargo de vereador. “Se vai dar voto, sinceramente, não tem importância”, afirmou.

SOFRIMENTO
No outro extremo, os dois parlamentares que menos apresentaram votos de pesar foram Rosaldo de Oliveira (Pros) e Durvalina Garcia (PT), que empataram com 11 requerimentos. Ele comentou que procura evitar a proposição de votos de pesar e também de aplauso.

“Às vezes, a gente fica discutindo a homenagem por três horas e pode ser um sofrimento dobrado para as famílias, pois ficam massacrando as pessoas, falando de seu ente querido”, disse Rosaldo.

O parlamentar lembrou, por exemplo, o caso de Paola Cristina Bulgarelli, que foi assassinada em junho passado, quando tinha 20 anos de idade. “A menina foi encontrada na sexta-feira. Na segunda, os familiares ainda estavam em estado de emoção e a Câmara ficou naquele rodeio em torno de uma questão que não deveria ser lembrada e, sim, esquecida”, falou.

Rosaldo acrescentou que uma quantidade alta de votos de pesar pode banalizar as homenagens e provocar sensacionalismo. “Nisso, se passam horas e muitos requerimentos oficiais, que poderiam impactar o município, ficam sem ser analisados”, afirmou.

TEMPO
O vereador Ermenegildo Nava (Pros) propõe mudanças para o voto de pesar, com o objetivo de desburocratizá-lo. A sugestão é que o autor da proposta tenha três minutos para falar sobre o homenageado, sem comentários dos colegas. Atualmente, quem propõe tem cinco minutos para apresentá-la e os demais parlamentares, dois minutos para comentar.

“O vereador faz um resumo de forma objetiva. Não precisa ficar todo mundo falando. Se eu não conheço a pessoa, vou falar o quê? E quem vai votar contra um voto de pesar?”, argumentou Nava. “Simplificando (o voto de pesar), a sessão não se transforma em um segundo velório”, afirmou.

CRITÉRIO
A cientista política Ângela Liberatti questionou o critério para escolher as pessoas homenageadas pelos vereadores. “É preciso entender qual é o critério, se exige objetividade ou se é subjetivo”, comentou. “Não sei qual é a intenção do vereador com essa proposta.”

Segundo Ângela, a homenagem é justa e merece ser dada para todas as pessoas que contribuíram com o município. “Todo o cidadão tem o mesmo valor”, disse. “Mas não sei que sentido tem trazer isso para a Câmara”, completou. Para ela, seria melhor o vereador prestar suas condolências como amigo da família, mas não como figura pública.

"MARAVILHOSO"
Uma das famílias homenageadas pela Câmara de Araçatuba com um voto de pesar foi a do senhor Benedito Manoel dos Santos, conhecido popularmente como Moringa, que faleceu em março deste ano, aos 84 anos, após sofrer dois infartos.

A viúva dele, a dona de casa Maria Aparecida Ferreira Costa Santos, 55, e uma das filhas, a garçonete Benigna Ferreira dos Santos, 28, gostaram da lembrança feita pelo Legislativo. “Eu achei maravilhoso, pois a Câmara mostrou que não se esquece da pessoa nem quando ela morre”, afirmou Maria Aparecida, casada com Moringa por 37 anos.

Segundo a dona de casa, muitas pessoas ficaram sabendo do falecimento depois do voto de pesar, por causa das transmissões da sessão (rádio, TV e internet).

A iniciativa foi proposta pelo vereador Jaime, que era muito amigo do falecido, segundo a viúva. Moringa também trabalhou com o ex-prefeito Jorge Maluly Netto e foi presidente do bairro Alvorada durante três anos. O Alvorada, aliás, foi o local onde a dupla passou a maior parte da vida de casados.

Os dois se conheceram no Paraná, onde Maria morava. Moringa era mineiro, da cidade de Machado, e estava trabalhando no Estado onde vivia sua futura mulher como chefe geral em uma torre de energia. Maria tinha 18 anos e era empregada como garçonete no restaurante onde Moringa frequentava. O namoro durou pouco e logo eles começaram a morar juntos. Ela foi a terceira esposa dele, com quem teve três filhos.

Texto: Ronaldo Ruiz Galdino
Edição: Sérgio Teixeira
Foto: Paulo Gonçalves - 19/08/2015

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