Reportagens

Uma única chance, um milagre

Alexandre Souza, jornalista e repórter-fotográfico da Folha da Região

Difícil fazer esta análise assim de repente, foi tão rápido, e hoje tudo vem em mente sobre o ocorrido naquela noite. Uma sexta-feira, dia 27 de abril de 2007, por volta das 21h. A chance de um milagre se aproximava.

Um dia normal de trabalho, um pouco corrido, véspera do fim de semana e uma ponte para folgar segunda e terça (dia 1º de maio). Cheguei em casa por volta das 19h, cansado, com vontade de tomar um banho e descansar. Resolvi abrir uma lata de cerveja e fumei dois cigarros, nada demais, sem exagero.

Resumo um pouco minha vida, que sempre foi bastante descontrolada, não fazendo as refeições direito e sempre fora de hora. Não praticava atividades físicas e fumava um maço de cigarro por dia. Na minha família já havia histórico de pressão alta, mas nada preocupante.

Sempre tive o hábito de verificar minha saúde. Fiz o tiro de guerra na turma de 1990 e criei o costume de doar sangue duas vezes por ano. Na bateria de exames não constava nada de errado. Pressão arterial sempre boa: 12 por 7. Quando fazia algum checkup, os médicos diziam que, no futuro, poderia desenvolver o quadro de hipertensão por causa dos fatores familiares. Pediam para eu parar de fumar cigarro, pois seria ele que causaria futuros problemas. Na maioria das vezes, não levamos isso muito a sério, achando que não acontece com a gente, só com os outros.

Voltando à sexta-feira, após uma cerveja de lata e fumar dois cigarros, fui tomar banho para jantar. Momento em que percebi uma pressão sanguínea mais forte nas veias. Até então, sem preocupação, comecei a jantar e senti que a comida não descia, estava parada na garganta, sem que eu pudesse engolir.

Quando fui tentar pronunciar algumas palavras, senti que não conseguia falar. Foi nessa hora que minha irmã e meu cunhado perceberam que algo de errado acontecia comigo e rapidamente me levaram ao hospital. Esse socorro imediato foi um dos fatores vitais para que as complicações não se agravassem. Aos 35 anos, eu acabava de sofrer um AVC (acidente vascular cerebral). Minha parte motora não tinha sofrido nenhuma consequência maior.

Na maioria dos casos de AVC, as pessoas ficam com partes do corpo comprometidas, com uma paralisação dos membros e até mesmo podendo acontecer o óbito. Só quando passei a ser informado do que estava acontecendo é que minha história começou a mudar. Primeiro, quando os médicos falaram que minha pressão arterial, quando entrei no hospital, era de 24 por 16. Aí você cai na real e percebe o quanto está errado, esquecendo que seu corpo tem limites.

Segundo, porque Deus foi muito bom, não deixando que o pior pudesse acontecer. Ele foi maravilhoso comigo e, como prova de amor, prometi a Deus e a mim mesmo que uma mudança seria necessária a partir daquilo vivido, o medo de morrer. Eu costumo dizer, hoje, que a hipertensão é a "morte instantânea". Não tem aviso prévio e age com rapidez. Talvez tenha uma chance, igual a minha e, se isso acontecer, saiba que foi uma chance única.

Artigo: Alexandre Souza
Foto: Valdivo Pereira - 14/08/2015
Edição: Aline Galcino

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