Reportagens

No lugar da tristeza, orações na vida de coveiro

Goes se esforça para fazer do cemitério "Recanto de Paz", no bairro Rosele,
onde trabalha, realmente um espaço de harmonia e paz

"Com muito orgulho". É assim que se define o coveiro Adolfo Gonçalves Goes, de 57 anos. Há seis na profissão, ele diz que se sente lisonjeado em participar de um momento marcante na existência do ser humano: a morte.

No lugar de tristeza e sofrimento, o coveiro se esforça, por meio de orações e vibrações positivas, para fazer do cemitério "Recanto de Paz", no bairro Rosele, onde trabalha, realmente um espaço de harmonia e paz.

O trabalho como coveiro apareceu após Goes ter atuado em diversas outras funções, sendo responsável pela vinda dele para Araçatuba, a de árbitro de futebol, que exerce até hoje. Ele nasceu e morou em Santos (SP), mas ficou encantado ao visitar o interior paulista em 1998, após ser convidado para apitar uma partida em Araçatuba, mudando-se para a cidade no ano seguinte.

Com dificuldades para encontrar emprego como construtor, profissão que exercia na época, levou a vida como pescador no rio Tietê até se inscrever para auxiliar de serviços gerais em concurso público da Prefeitura.

Antes de se tornar oficialmente coveiro, Goes passou dois anos fazendo diversos serviços e já ajudava na abertura e fechamento de sepulturas. Hoje, trabalha das 7h às 18h, de segunda a sexta-feira, e faz plantões aos finais de semana, a cada 15 dias. Além de vala, a limpeza também faz parte da função, cujo salário médio é de R$ 1 mil.

Todos os dias, Goes monta uma rede no cemitério para um cochilo após o almoço;
para ele, a função é uma missão dada por Deus

O coveiro confessa que até hoje se emociona no trabalho. Para ele, os enterros mais difíceis são os de crianças, jovens e pessoas conhecidas em mortes violentas. O primeiro e mais marcante foi o de um bebê de quatro meses de vida. No passado, o coveiro perdeu um filho com a mesma idade.

"Carregando o caixãozinho daquela criança, senti como se estivesse carregando o do meu filho", lembra. No entanto, diz que a partir do enterro do bebê passou a ver a vida de uma forma totalmente diferente, o que fez enxergar a profissão como uma missão dada por Deus.

MEDO
Goes confessa que sentiu medo apenas uma vez. Ele estava sozinho no cemitério, perto do fim do expediente, e ouviu um barulho como se fosse placas de sepulturas batendo. "Naquele dia, acelerei o passo para ir embora", disse.

Por meio do trabalho, o coveiro aprendeu que não importam as características que a pessoa possua, todos terão, de fato, o mesmo fim. "Na hora da morte e, principalmente, quando vamos exumar o corpo, vejo que todos acabam dentro de um saco de lixo", expressa. Goes explica que, três anos depois do enterro, a sepultura pode ser aberta e os restos mortais são colocados dentro de um saco plástico, que continua dentro do jazigo, para dar espaço a demais caixões.

À VONTADE
Para provar o quanto se sente à vontade no ambiente de trabalho, Goes conta que, após almoçar, todos os dias, monta uma rede em duas árvores e tira um cochilo tranquilo entre os túmulos. Católico, ele ressalta que pede proteção para ele e seus colegas de trabalho, em orações diárias.

Goes tem tanto orgulho da profissão que até comemora do Dia do Coveiro, em 17 de dezembro. "Confesso que há muita discriminação com a nossa profissão, mas eu não ligo, pois um dia essa pessoa poderá precisar de mim", finaliza.

Adolfo Gonçalves Goes e colegas de trabalho; para ele, os enterros mais difíceis
são os de crianças, jovens e pessoas conhecidas em mortes violentas 

Texto: Amanda Lino
Fotos: Paulo Gonçalves - 05/08/2015
Edição: Aline Galcino

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