Reportagens

Mulher quer se aposentar como coveira

Quando surgiu a oportunidade de ser coveira, mesmo com receio, Leila decidiu encarar o desafio

Depois de diversas tentativas para ingressar em um concurso público em Araçatuba, em busca de um emprego estável, Leila Cristina Brunete, 40, foi chamada em 2011 logo para o que ela menos esperava: o de coveira. Na época, concorreu com cerca de 20 candidatos a quatro vagas para o cargo. O chamado ocorreu após prestar sete concursos públicos municipais para diferentes funções que se enquadravam em seu grau de escolaridade (ensino médio completo).

Até então, Leila trabalhava como agente de endemias na cidade, em um emprego temporário da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência). Quando surgiu a oportunidade de ser coveira, mesmo com receio, decidiu encarar o desafio de uma profissão, predominantemente, masculina e que precisava lidar com a morte. No entanto, diz que se adaptou rapidamente à rotina no cemitério da Saudade, com a ajuda dos demais colegas, todos homens. No local, além de Leila, há quatro coveiros e outros três funcionários.

 ASSISTA AO VÍDEO: 

NORMAL
"As pessoas perguntam como tenho coragem de trabalhar aqui, mas é muito mais normal do que imaginam. A gente quebra o cimento, abre o buraco e coloca o caixão na gaveta", explica.

Ela ressalta que a maioria das pessoas vê a função como negativa. Porém, ela ressalta que gosta do emprego, responsável pelo sustento dela e do filho de 8 anos, que aceita bem o emprego da mãe e até comenta com os colegas de escola.

"As pessoas perguntam como tenho coragem de
trabalhar aqui, mas é muito mais normal do que imaginam"

Divorciada, com o salário de quase R$ 1 mil que ganha, diz que calcula todos os gastos e economiza o máximo que pode, mas consegue pagar todas as contas. Sobre o futuro, diz que pretende se aposentar na profissão e a indica para outras mulheres que estejam em busca de um cargo estável.

Como coveira, conta que às vezes é difícil segurar a emoção e que chorou junto a uma mãe que enterrou o filho de 22 anos com leucemia há cerca de dois anos. "Neste dia, não consegui conter as lágrimas. Ela (mãe) vem sempre aqui visitar o filho", informa. Leila diz que nunca precisou enterrar algum familiar ou pessoa conhecida, mas, se for preciso, um dia o fará.

DELICADEZA
No cemitério Recanto de Paz, Walquíria Aparecida Queiroz da Silva, também a ocupa função de coveira. Assim como os coveiros, apesar de gentil e delicada, Leila já adquiriu experiência no manuseio com picaretas, pás, carriolas e demais ferramentas durante os quatro anos que trabalha no espaço. Em média, ela realiza de 30 a 40 sepultamentos por mês.

Leila conta que às vezes é difícil segurar a emoção e que chorou junto
a uma mãe que enterrou o filho de 22 anos com leucemia há cerca de dois anos

Texto: Amanda Lino
Fotos: Paulo Gonçalves - 13/08/2015
Edição: Aline Galcino

A morte sem tabus Designed by Templateism | MyBloggerLab Copyright © 2014

Tecnologia do Blogger.