Reportagens

Médico investigou causas de mortes durante 38 anos

D'Elia encerrou a carreira no IML de Penápolis, onde a média era de 120
a 150 atendimentos ao mês, com oito a dez necropsias no período

João Carlos D'Elia, 69 anos, queria ser médico para salvar vidas. No entanto, o destino fez com que ele passasse 38 anos identificando a causa de mortes violentas, uma das atribuições do médico-legista.

Após concluir o curso de medicina, em 1973, ele fez residência em ortopedia, em São Paulo. Três anos depois, quando já atuava na área, passou em concurso público para vaga de médico-legista, que exigia apenas a formação em medicina. A especialização foi oferecida pela SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo.

"Ser legista foi uma oportunidade que surgiu na minha vida, pois eu queria algum vínculo com Estado, até por questões de aposentadoria. Não me arrependo de ter feito. Me aposentei no ano passado. Foram 38 anos dedicados à profissão", comenta.

Após assumir o cargo, D'Elia trabalhou no IML (Instituto Médico Legal), em São Sebastião. Dois anos depois, mudou-se para Penápolis, onde não tinha IML. Por isso, ficou lotado em Araçatuba, prestando serviço em Birigui e Penápolis.

Ele explica que a medicina legal tem uma característica específica, que é não ter um volume muito grande de trabalho, mas o profissional precisa estar disponível 24 horas por dia, todos os dias do mês. Isso porque, existem os atendimentos diários, com exames de corpo de delito solicitados por autoridade policial em casos de acidentes, agressões, embriaguez, entre outros, e os casos de urgência, entre eles, os de morte, seja por acidente, homicídio ou suicídio.

O profissional encerrou a carreira no IML de Penápolis, onde a média era de oito a dez necropsias em cadáveres por mês.

DESTAQUES
Durante a carreira, D'Elia ajudou a esclarecer inúmeros casos. Ele destaca a investigação da morte de uma adolescente, cujo corpo foi encontrado sobre a linha férrea, em Penápolis, em 1981. A princípio, ela teria morrido atropelada por um trem, mas ficou provado por exames que foi deixada já sem vida no local.

"Como eu não tinha muita experiência, pedi auxílio à chefia do IML em São Paulo. Colhi material e o levei pessoalmente de ônibus, em isopor, pois a imprensa estava em cima do caso. Os exames mostraram que as lesões produzidas pelo trem eram pós-morte, ou seja, ela já estava morta quando foi deixada lá", diz.

Medicina legal tem uma característica específica, que é não ter um volume
muito grande de trabalho, mas o profissional precisa estar disponível 24 horas por dia, afirma D'Elia

Ele também cita o encontro de um cadáver em avançado estado de decomposição, em Birigui, há alguns anos, cuja identificação foi possível por meio de fotos de tatuagens, que indicaram que a vítima era integrante de organização criminosa. "A partir daquela necropsia, a polícia chegou a todo esquema da máfia japonesa na região", comenta.

Houve ainda casos em que pessoas investigadas deixaram de ser incriminadas por ter sido comprovado suicídio. Em um deles, um familiar encontrou a pessoa enforcada e, ao tentar soltá-la, caiu junto com o corpo, causando um ferimento na cabeça da vítima.

O legista aposentado também exumou o corpo de um homem encontrado em casa vários dias após a morte. Ele foi enterrado e exame feito nove meses depois apontou múltiplas fraturas na costela, constatando que tinha sido roubado e agredido. O autor foi preso.

MELHOR
Segundo D'Elia, nos últimos 20 anos a estrutura para o profissional da área melhorou muito. "Antes exumávamos corpos no cemitério, fazíamos necropsia de vítima de acidente na estrada", lembra. Hoje, ele diz que existem auxiliares de legistas, mas no interior, o médico "gosta de pôr a mão na massa". "A gente quer ver a direção da facada; em caso de acidente, se houve esmagamento; encontrar projéteis em baleados," explicou sobre o processo.

CHOQUE
Crimes envolvendo crianças e mortes violentas sempre chocaram D'Elia. "Teve uma mulher que morreu com mais de 30 facadas, uma gestante esfaqueada, uma criança que morreu após ser agredida pela madrasta. E teve um caso que um homem derrubou o outro no chão e cortou a cabeça dele ao meio com uma enxada. Como um ser humano pode fazer isso com outro? É muito cruel.

Ele comenta, ainda, que profissões que lidam diretamente com a morte podem desencadear problemas psiquiátricos em quem as exercem. D'Elia contou que conhece pessoas que trabalhavam nesses ambientes e que passaram a delirar e até dizer que viam espíritos.

Porém, para ele, o contato direto com a morte, o fez ter uma filosofia de vida mais realista. "Eu encaro a morte com mais naturalidade, não que eu não sinta. Mas, por exemplo, não vou a velórios. Não gosto do culto pós-morte. Entendo que esse deveria ser um ambiente quieto, respeitoso e rápido, mas que acaba sendo o inverso. Por isso, informei à minha família que quero ser cremado", conclui.

Texto: Lázaro Jr.
Fotos: Paulo Gonçalves - 15/07/2013
Edição: Aline Galcino

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