Reportagens

AVC e infarto lideram causas de morte em 10 anos

Após derrame cerebral, Gessi mudou hábitos alimentares e inseriu atividade física em sua rotina
Tudo corre exatamente como todos os dias, a rotina está dentro da normalidade e os compromissos agendados estão sendo cumpridos. Até que, de repente, o corpo paralisa, afetando os movimentos; ou o peito passa a doer de forma abrupta, acompanhada de suor excessivo e tontura. É assim que acontece com as pessoas acometidas pelo AVC (Acidente Vascular Cerebral) e infarto do miocárdio, respectivamente. Doenças da vida moderna, elas são consideradas as principais causas de morte dos araçatubenses.

Muitas das vítimas atingidas por essas doenças cardiovasculares sobrevivem e conseguem ter uma vida normal, já outras ficam acamadas, com sequelas. E tem aquelas que não resistem.

Levantamento feito pela reportagem, por meio do banco de dados do Ministério da Saúde, entre os anos de 2004 e 2013 (último disponível), mostram que 2.981 moradores de Araçatuba morreram por causa das duas enfermidades. O número corresponde a 22% do total de 13.508 araçatubenses que perderam a vida no mesmo período. Somente em 2013, as doenças cardiovasculares mataram 266 pessoas, representando 19,21% dos 1.384 óbitos.

Na contramão dessas estatísticas estão aqueles que atribuem sua sobrevivência à vontade de Deus. Para eles, ainda não era hora de morrer. Entretanto, sobreviver a um infarto ou AVC fez com que eles mudassem de atitudes e pensamentos. É o caso da aposentada Gessi Maria Pereira, de 61 anos, moradora do bairro Jussara, em Araçatuba. Há um ano e quatro meses, Gessi seguia sua rotina: levantar cedo para arrumar o neto para ir para a escola e depois ir para o trabalho de diarista, que exerceu por 20 anos. "Só que, quando fui levantar da cama, não conseguia mexer o lado esquerdo do corpo. Estava totalmente paralisado", lembra a aposentada.

Naquele momento, a idosa pensou ser uma dormência e mesmo assim seguiu com as atividades até derrubar a lata de achocolatado no chão. "Foi quando vi que a coisa era grave e liguei para meu filho, que me levou no Pronto Atendimento São João. Lá, o médico me deu remédio e encaminhou para a Santa Casa. Estava tendo um AVC e percebi a boca totalmente torta", contou.


OBSTRUÇÃO
Já na Santa Casa, a paciente foi submetida a uma tomografia pela equipe de neurologia, que identificou obstrução em uma veia do cérebro. A rapidez no socorro aliada ao atendimento inicial no PA São João facilitou a recuperação da aposentada. No hospital, ela ficou internada um único dia.

Gessi acredita que o estresse provocou o AVC, pois não faz uso de bebidas alcoólicas e nem de cigarro. No entanto, a idosa afirma que, na época, estava acima do peso ideal, com 80 quilos, e era desregrada na alimentação. "Atividade física? Nunca tinha feito. Foi Deus que me livrou dessa. Graças a Ele, hoje sou outra pessoa", contou Gessi, que é evangélica.

Após o episódio, ela lembra ter ouvido dos médicos que só iria recuperar os movimentos em seis meses. Mas, a força de vontade e determinação a levaram a andar em dois meses. Hoje, Gessi ingere só produtos saudáveis, evita os industrializados, principalmente temperos, e o açúcar. Toda semana, ela faz sessões de fisioterapia e frequenta a academia ao ar livre instalada na praça Getúlio Vargas. "Minha filha me traz aqui de moto, três vezes por semana. Já perdi oito quilos e sinto que estou bem, vivendo com qualidade", destacou.

Gessi acredita que o estresse provocou o AVC,
pois não faz uso de bebidas alcoólicas e nem de cigarro

LESÕES
A médica neurologista Daniela Laranja Gomes Rodrigues, com pós-graduação em neurologia vascular pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que o AVC é uma doença cerebral que causa obstrução ou ruptura de artérias cerebrais, causando lesões isquêmicas (obstrução arterial) ou lesões hemorrágicas, quando há ruptura de uma artéria e consequente sangramento. "O AVC isquêmico corresponde a 80% dos casos. Os dois tipos matam e incapacitam. Se não tratados corretamente, cerca de 70% dos pacientes não retornam ao trabalho e entre 30% e 50% ficam dependentes nos mais diferentes graus", disse.

O neurologista Hélio Hiller de Mesquita, que atua em Araçatuba, define que, no caso do AVC, o "tempo é cérebro". Isso quer dizer que, quanto mais rápido for detectado, maiores as chances de recuperação do paciente. Quando ocorre o isquêmico, o tratamento é baseado em um medicamento que deve ser introduzido nas primeiras três horas para dissolver o coágulo que obstrui a artéria cerebral. Já no hemorrágico, é utilizada uma pinça para "sugar" o hematoma.

A hidratação com soro, segundo o médico, complementa o arsenal de terapias utilizadas no tratamento de AVCs. "Por isso é que recomendamos, principalmente aos idosos, uma hidratação diária. Como o idoso não sente sede, o importante é mantê-lo hidratado com água, sucos, água de coco. Ajuda a prevenir o AVC", aconselhou.

Mesquita, que atua em Araçatuba, define que, no caso do AVC, o "tempo é cérebro"

Texto: Monique Bueno
Fotos: Paulo Gonçalves - 11/08/2015
Edição: Aline Galcino

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