Reportagens

Agente funerário tem a morte como rotina

"Meu principal objetivo é deixar o caixão no velório com a tampa aberta
e fazer com que o ente querido seja velado com dignidade", diz Carvalho

A morte é uma certeza que muitos seres humanos têm como indesejável. Para uns, ela significa o fim; para outros é uma passagem necessária para um lugar melhor. Mas, é neste momento tão delicado da vida que atuam os tanatólogos, mais conhecidos como agentes funerários, coveiros e médicos-legistas.

Foi a preparação de cadáveres para a despedida de amigos e familiares a profissão escolhida por Nilson dos Santos Carvalho, de 41 anos, que trabalha na Funerária Cardassi, em Araçatuba. Há 15 anos na profissão, o tanatólogo disse que optou pela ocupação após ver como era feita preparação dos corpos. "Eu tinha uma floricultura e fui contratado pela funerária para cuidar das coroas de flores. Foi quando passei a observar o trabalho feito por meus colegas", comentou.

Para trabalhar na função, cujo salário varia entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil, Carvalho precisou fazer cursos de especialização voltados a agentes funerários. Hoje, ele já perdeu a conta de quantos cadáveres já preparou. No entanto, diz que a empresa realiza, em média, 100 funerais por mês. O trabalho é dividido com mais 12 profissionais.

TÉCNICA
Segundo Carvalho, preparar o corpo para o velório vai além da higienização e da maquiagem. Diferente dos procedimentos utilizados antigamente, quando os fluidos corporais eram substituídos por formol, hoje se usa a tanatopraxia. O método não utiliza a substância química, mas sim um líquido conservante e desinfetante, num trabalho que pode demorar até quatro horas.

"A tanatopraxia ajuda na conservação dos corpos, evitando o inchaço, o vazamento de líquidos e o mau cheiro, e também ajuda a corrigir a cor da pele, deixando-a com um tom mais próximo ao natural", explica. Quando uma pessoa morre de infarto, por exemplo, o corpo fica com coloração roxa forte, segundo Carvalho. Quando o óbito é por hepatite ou cirrose, a cor predominante é a amarela. "A substituição dos líquidos do corpo pela solução faz essa correção", afirmou.

Em alguns casos, como acidente, é feita a reconstituição facial, usando uma massa corretiva e, depois, a maquiagem. O corpo também é lavado com sabonete, xampu e condicionador, produtos iguais aos cosméticos comprados nas prateleiras de supermercados.

Em alguns casos, como acidente, é feita a reconstituição
facial, usando uma massa corretiva, explica Carvalho
HUMANIZAÇÃO
O grande desafio da profissão, para ele, é a humanização, fazer com que o momento de parentes e amigos da pessoa que se foi seja menos doloroso. "Essa profissão tem um trabalho social muito bonito, pois atendemos também as famílias tentando tirar o impacto da perda e amenizar a dor da morte. As pessoas não veem esse trabalho, que começa com a chegada do corpo e termina no enterro, mas é importante. Para mim é um dom e ficarei nesta profissão até me aposentar", ressalta.

SENSÍVEL
E engana-se quem acredita que os agentes funerários se acostumam a lidar com a morte. "O meu trabalho não me tornou uma pessoa insensível", afirma, lembrando que já se emocionou em velório. "Uma vez não contive as lágrimas ao ver uma família chorar muito a perda de uma jovem. A morte é um momento brutal, machuca quem fica, porém é um estágio que nos faz pensar em dar muito mais valor na vida dada por Deus," garantiu.

"A morte é um momento brutal, machuca quem fica, porém, é um estágio
que nos faz pensar em dar muito mais valor na vida dada por Deus"

Texto: Ivan Ambrósio
Fotos: Paulo Gonçalves - 28/07/2015
Edição: Aline Galcino

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