Reportagens

A vida depois do coma

Cálculo renal que originou o drama é guardado pelo casal Maria Aparecida e Hamilton de Carvalho
UTI. Para muitas pessoas que viram um parente adoecer, a sigla de Unidade de Terapia Intensiva possui uma série de significados. Angústia, sofrimento, espera, oração e paciência são apenas alguns deles. No entanto, para quem esteve inconsciente em um leito de hospital e saiu dele, as três letras assumiram um novo sentido. Sobreviver ao coma, um recomeço.

Há exatos dois anos e um mês, o aposentado Hamilton de Carvalho, 74, morador em Penápolis, entrou na sala de cirurgia para remover uma pedra do rim. O procedimento, que até então parecia simples, foi o início de um drama para os familiares. O quadro clínico do paciente se agravou e ele permaneceu 37 dias em coma.

Os médicos chegaram a reunir a família e informar que não havia expectativa para a recuperação. Porém, após 46 dias de internação, o paciente recebeu alta e voltou para casa. Hoje, ele segue a vida normalmente, ao lado de filhos e netos. Sobre o período que passou no hospital, não tem nenhuma lembrança.

Carvalho mostra cirurgia para remoção do rim
CIRURGIA
Hamilton disse que fazia tratamento para combater um cálculo renal desde 1991. Até então, em momento algum os médicos lhe disseram que teria que passar por uma cirurgia. Num certo dia, ele foi ao banheiro e notou que a urina dele estava escura. “Foi a mesma coisa que ter virado uma Coca-Cola. E era sangue. Eu já tinha perdido o rim”, contou.

Ele procurou um médico no município de Lins, em 2013, fez uma radiografia e marcou a internação. Na sequência, ele foi submetido à cirurgia, mas não se recorda desse momento. “Eu não me lembro nem que fui duas vezes antes da internação para acertar o procedimento com o hospital. Eu fui e voltei dirigindo, mas, se alguém me pedir para ir até lá, eu não sei onde fica.”

O aposentado explicou que só retomou a consciência após receber alta, 46 dias depois da internação. Quando deixou o hospital, ele viu o casal de fisioterapeutas que cuidou dele ao lado do carro para se despedir.

A dona de casa Maria Aparecida de Carvalho, 68, esposa de Hamilton, contou que, após a primeira cirurgia para remoção da pedra no rim, a previsão era de que ele teria alta médica em quatro ou cinco dias. No entanto, o aposentado ficou muito agitado e “não dizia coisa com coisa” nos dias seguintes, até ser diagnosticada a necessidade de nova cirurgia para remoção do rim operado.

Após a retirada do órgão, o paciente ficou o tempo todo na UTI. “Ele entrou em coma no dia 15 e, depois disso, teve pneumonia, anemia, hemorragia no estômago, infecção hospitalar e vários AVCs (Acidente Vascular Cerebral). Também recebeu muitas transfusões de sangue”, afirmou.

Carvalho agradece a Nossa Senhora
DESPEDIDA
No período em que esteve internado, Hamilton foi atendido por uma equipe formada por oito médicos. “Como não reagia ao tratamento, uma semana antes de ele sair da UTI os médicos mandaram reunir a família para se despedir, pois não havia esperança de que ele sobrevivesse”, disse a esposa.

Maria Aparecida contou que pediu aos médicos que reduzissem as doses dos medicamentos e, depois disso, o paciente começou a reagir. Ele, que tem 1,80 metro de altura, foi internado com 108 quilos. Ao sair do hospital, estava pesando 68. “Só quem acompanhou sabe o que eu passei”, comentou.

Quando voltou para casa, ele permaneceu vários dias acamado. Depois disso, começou a se locomover com ajuda de cadeira de rodas, andador e, por fim, com auxílio de uma bengala. Foram sete meses de fisioterapia, três vezes por semana, até voltar a ser independente. A família acredita que o fato de Hamilton sempre ter sido “muito de bem com a vida” contribuiu para a recuperação.


Segundo eles, a religião também teve papel fundamental no processo. O casal é devoto de Nossa Senhora Aparecida. Inclusive, as duas filhas levam o nome da santa, que está presente na sala da casa por meio de uma imagem.

Hamilton perdeu totalmente a audição do ouvido esquerdo e 30% do direito por causa dos medicamentos. Porém, contou que a retirada do rim não alterou a rotina dele, que mantém o bom humor: “Se eu tenho medo de morrer? A gente morre e nem vê”.

Texto: Lázaro Jr.
Fotos: Paulo Gonçalves - 27/07/2015
Edição: Sérgio Teixeira

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